tolos devaneios tolos, II

estrada

Esta história de professorar já vai longe demais.

Às vezes, eu queria passar despercebido na vida. E esse blog atrapalha um pouco.Até agora foram 47 comentários sobre o e-mail anônimo. Há outros e-mails que chegaram. E ainda mais mensagens. O que eu queria dizer é que não me interesso nem um pingo em saber quem me manda mensagens (até porque quem as manda também não tem interesse me se identificar), e sequer tiraria um décimo de ponto por conta disso. Quem me conhece sabe. Vingança não faz parte do meu repertório emocional. Talvez já tenha feito quando eu tinha a idade dos meus alunos.

Estou revendo muitas coisas sobre mim mesmo. Não tem só a ver com este e outros e-mails. Tem a ver com uma fase nova que aponta para mim ali na frente. Terças-feiras são dias especialmente dolorosos. Tenho terapia e o curso de budismo. Então ali mexem no animus/anima. Se sobra um tempo durante à tarde, vou para a academia. Então o que doem são os músculos, esses do lado de fora, que o músculo do lado de dentro - “involuntário”, diria a canção - já dói permanentemente.

Agora mesmo gastei uns minutos tentando me lembrar do meu primeiro dia de aula. Tenho todas anotadas em minha agenda. Minha memória anda mal. Perco horários. Perco tempo. Perco papéis. E me esqueço, muitas vezes, que papel vim representar nestes dias tão difíceis. Então me lembro. No primeiro dia de aula, nenhum aluno apareceu. Melhor: um aluno apareceu. Veio me dizer que talvez não assistisse a todas as minhas aulas porque joga futebol pela atlética da faculdade. Esse era o recado dele. Então dei o meu recado: se esforce para assistir as minhas aulas.

Eu sei que eu não sou o professor ideal. Talvez eu nunca tenha tido um professor ideal. Graças a deus. Um professor ideal, para minha época de estudante, era aquele que simplesmente não aparecia às aulas. Não dava trabalhos. Não provocava. Não cobrava e nem fazia chamadas. Ah, sim. Esse das chamadas eu tive sim. Era meu professor de Teoria Política. Não fazia chamadas. E, por conta disso, eu não ia às aulas. Ele mandou todo mundo ler o “18 Brumário”, de Marx. Eu não li. E entreguei a prova em branco, com um bilhete “Querido professor: não vou fazê-lo ler algo que não soube ao escrever. Seria muito penoso. Se esta prova está em branco, eu sei, é culpa minha. Desculpe-me. Rodrigo”. A prova foi entregue, evidentemente, com um zero. O pior não é isso. O pior é que não me lembro do nome desse professor. Um professor ideal.

O prof. A., que meu deu aulas de História da Educação, certa vez me chocou. Havia um seminário marcado, era dia do nosso grupo. E no nosso grupo estava K. Precisávamos escolher qualquer canção que falasse de aspectos sócio-educacionais do país e analisá-la. Só que a mãe de K. se suicidou um dia antes da apresentação do trabalho. Tomou formicida. Foi um escândalo na pequena Tupã. “Uma mulher tão bonita e com filhos tão adoráveis”, diziam todos. “Além disso, como é ingrata!, seu marido fazia tudo a ela”. Então falamos ao professor que era impossível apresentar o trabalho, K. estava enterrando a mãe e a fita com a canção estava com ela. Ficamos sem nota. A. foi intransigente.

Havia uma aluna, nesta mesma época, L. era o nome dela. E L. era sim, uma aluninha bastante desinteressada (apesar de muito interessante). Nunca estava nas aulas de M. M. é aquela que se diz “cansada de professorar”. Aulas de filosofia. M. tinha algumas manias. Uma delas era corrigir provas à lápis. E ninguém entendia a razão disso. Mas assim era. Um dia L. resolveu perguntar. “Professora, por que a senhora corrige provas à lápis?”. De pronto, respondeu M.: “porque você não cuida da sua vida medíocre, que eu cuido da minha, também medíocre?”. Até esse dia, L. nunca havia aberto a boca para fazer pergunta alguma. Nem sobre Kant, nem sobre nada. Mas a prova lhe interessava.

F. me deu aula de rádio e televisão. O trabalho final do semestre era um documentário de TV. Tínhamos o tema: “Londrina: 80 anos”. Então ficamos bem uns dois meses cuidando do documentário. Lembra-se, Moraes, você era o cinegrafista? E eu lhe acordava às 8 da manhã para gravarmos as entrevistas. Você, ainda bêbado de sono, ia. Eu, de terno logo de madrugada. O Olavo, produtor. Trabalhamos muito, mas entregamos o trabalho com algumas horas de atraso. Conforme o combinado, metade da nota. E assim foi. Metade.

A., M. e F. são meus professores ideais. E agora estou repensando.

Se foi com eles - carrascos, insensíveis, arrogantes e autoritários - com quem aprendi, tento reproduzir os modelos. Mas a minha competência maquiavélica não chega aos pés dos três. Tenho, no mínimo, metade da idade deles. Não vivi o suficiente.

No primeiro dia de aula, quando ditei regras absurdas, somente ditei as regras. Eram regras tão simples que se desfizeram no caos. “A primeira: eu faço chamadas. Depois: eu coloco faltas. Ninguém deve responder chamadas por ninguém. Quem tira faltas do diário - por qualquer razão - é a secretaria. Minha avaliação vai ser dividida. Dos dez pontos, 4 são dedicados à prova, 3 à resenha crítica de um livro que vocês escolhem dessa lista, 2 à um trabalho que depois explico melhor como vai ser e um, um ponto para aqueles alunos que faltarem menos de 15% à minha aula”. Todos concordaram. O problema é que a matemática não resolve transtornos, turbulências e santos-que-não-batem.

De verdade, eu não sou a favor dessa escola que proponho. Dessa escola matemática, cheia de números e regras, com horários delimitados. Sou a favor de uma outra escola. Sempre penso que se um dia eu tiver filhos, eles estudarão em Summerhill, na Inglaterra. Ainda há Summerhill?

Se eu pudesse, mas não posso, proporia: vamos fazer uma escola diferente. Aqui todo mundo entra e sai na hora que quiser, faz prova quem quer e no final do semestre todos passam, automaticamente. Eu também, não tenho compromisso algum. Venho quando quero e fica tudo resolvido. Há dias - ah, meu deus, alguns dias - em que garanto, tenho mais preguiça de ir à aula do que meus alunos. Esses dias de outono em SP, então, são terrivelmente tentadores a ficar “doente” em casa. Mas essa escola seria injusta para quem paga R$ 700/mês.

M. me ensinou que a justiça dos homens é uma antinomínia da razão de Kant. E estou eu aqui discutindo justiça. Data vênia. Sou injusto, arrogante, precipitado, egoísta e tudo o mais. Somado a uma incompetência que não me deixa ser um A., M. ou F.

Mas a charada está morta: descobri nesta noite. Meus alunos queriam um professor como eles, e eu, queria alunos como eu. Impossível. A minha proposta é aprender juntos. Mas juram, de pés e mãos juntas, como anjinhos de nossa senhora do carmo, juram para mim, queridos alunos, que vocês vão me devolver os pedaços da alma e que no fim do processo eu não precise plagiar resenhas da internet e nem perder a pouca habilidade que tenho ao escrever para ficar mais perto de vocês. Combinado?

Publicado em 13 de maio de 2003 às 10:28 por manzano

Comentários

    • É Manzano, nem todos os alunos são como nós éramos. Pagam R$ 700 para que você os eduque em todas as instâncias, inclusive naquelas que deveriam ter sido realizadas por seus pais, ou pelo “ensino fundamental” (já pensaram no porquê do nome?).

      Tenho pena deles, que são jogados aos cuidados da babá, da TV, da pré-escola, da escola, do cursinho e, agora que chegaram à faculdade, clamam por atenção e reclamam do descaso que sempre sofreram. Pena que reclamam às pessoas erradas.

      Mais pena, ainda, tenho de você que tem que aturá-los por um pouco mais que R$ 700.

      Infelizmente as pessoas ainda insistem nesse equívoco de achar que tudo se resume a cifrões. E a faculdade vai pouco a pouco se transformando num criador de “teres” ao invés de “seres”.
    • por james,
    • 13.Mai.2003 às 11:04 - Permalink - Reportar
    james,
    • Você pode não ser um ótimo professor para os seus alunos, mas para mim você é um ótimo escritor.Consegui ler este blog inteiro de um tapa só.
    • por nico (com preguiça de abrir login)
    • 13.Mai.2003 às 11:25 - Permalink - Reportar
    nico (com preguiça de abrir login)
    • Manzano, sei que a situação é delicada, mas queria levantar dois pontos:

      1) Estou torcendo para que você tenha feita uma avaliação sem paixões antes de dar seguimento a essa discussão nesse blog. Não conheço a direção da sua faculdade, mas gostaria de lembrar alguns casos célebres em que trabalho e blogs se uniram com resultados pouco desejáveis. Inclusive aqui no Tipos.

      2) Sendo novamente aluno de graduação e já tendo sido professor (mesmo que de inglês, não de curso superior), fico cada vez mais convicto que cobrar presença ainda é um erro. Ainda mais em uma faculdade particular, na qual não se encontra o argumento de que “vocês estão sendo bancados pelo dinheiro público, e têm a obrigação de se esforçar e bla, bla, bla”. O professor tem a obrigação de ensinar àqueles que querem aprender. E, por mais que possamos crec como docentes que nossas aulas podem ser importantes para todos, cada um tem seu cada um nessas horas. Às vezes, É mais importante comer um pão de queijo com a menina que roubou seu coração do que ver o que Adorno tem a dizer sobre a indústria cultural. O Adorno a gente recupera nos livros - já as mulheres tem seus intrínsecos, como bem frisou Jece Valadão no comentário no blog da Paula.

      É isso. Sorte sempre.
    • por bastardo
    • 13.Mai.2003 às 12:01 - Permalink - Reportar
    bastardo
    • ::acho q o nome do prof de teoria política era pedro roberto!
      não sei se era o mesmo q tivemos de manhã, mas a julgar pelo 18 de brumário...
      ::no meu primeiro dia de aula, quase todos os alunos esperavam-me. mas de lá para cá já não sou mais a mesma gisele. Antes eu era mais paciente... hj (poucos.meses.depois) já vi que o que querem é pagar suas mensalidades, participar de algumas aulas e no final do curso dizerem-se jornalistas! sem esforço, nem leitura!
      triste...
    • por gisele
    • 13.Mai.2003 às 13:25 - Permalink - Reportar
    gisele
    • Triste nada, menos saturação no mercado. Diploma não segura emprego de ninguém mesmo...
    • por james,
    • 13.Mai.2003 às 13:29 - Permalink - Reportar
    james,
    • ::se a questão fosse diploma.segurar.ou.não.emprego era só abrir cusrinho stécnicos de edição de textos, de como segurar um microfone, como parecer confiável diante das câmeras e como segurar o leitor com seu texto pobre e engraçadinho!
      ::fico triste pq uma “Universidade” é um lugar além da técnica e do boleto no final do mês!
    • por gisele
    • 13.Mai.2003 às 13:42 - Permalink - Reportar
    gisele
    • Nossa, professor, eu até me emocionei ao ler seu post e confesso que até estou em sentindo culpada por ter faltado ao primeiro dia de aula!! Bom, pode colocar aí a primeira semana de aula!
      Imagino a cena triste: vc, sentado na sua cadeira, todo despenteado (pra variar), com a cabeça apoiada na mão, esperando algum santo aluno que estivesse disposto à abandonar a farra da caça aos bixos para conversar com vc...
      Mas os tempos são outros e, embora vc não seja tão mais velho que nós, seus alunos, os tempos mudam tão rapidamente que fica difícil pra qualquer um acompanhar. Eu vi a Era do Vinil e, minha priminha, com apenas 7 anos (13 anos a menos que eu) já nasceu com DVD em casa.
      Só queria pedir para vc não se culpar, porque todo mundo tem preguiça, todo mundo desgosta de alguém aqui ou ali, o tempo passa para todo mundo e cada um tem um jeito diferente de olhar a vida. Alguns a olham como nós e outros não. Pra não enlouquecermos, é preciso aceitar isso e seguir em frente... Foi uma das coisas que aprendi nos meus poucos 20 anos.
      De qualquer forma, queria dizer que adoro a sua aula, vc de mau ou bom humor!!
      Até segunda!
    • por Camile
    • 16.Mai.2003 às 12:09 - Permalink - Reportar
    Camile
    • Se vc quer passar despercebido na vida, a primeira coisa eh detonar este blog MESMO. Vc nao me conhece, mas quando eu te vejo eu quase digo 'oi, tudo bem?'
    • por uma fan
    • 17.Mai.2003 às 12:33 - Permalink - Reportar
    uma fan
    • Leio e vejo meus professores. Leio e vejo meus colegas. Leio e vejo a mim mesmo. Educação, em comunicação ou não, é um processo que as vezes parece que nada tem a ver com ensinar. Parece que tem a ver apenas com vontade de aprender.
    • por Gonzo
    • 22.Mai.2003 às 01:03 - Permalink - Reportar
    Gonzo
  1. Nannie
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