tolos devaneios tolos, II

crise professoral

Estou em crise professoral.

Culpa de um e-mail, desses e-mails que vêm sem nome e sem possibilidade de resposta. Eis que me chega essa mensagem e me põe a pensar sobre professorar.

Professorar é um verbo engraçado. Eu nunca tinha ouvido, até que M.S., minha professora de filosofia do Ensino Médio, falou dias desses para mim: “estou cansada de professorar”. Então o conjugo.

Eu professoro.

Tu professoras.

Ele professora.

Nós professoramos.

Vós professorais.

Eles professoram.

O e-mail que me chega:

"nome: Não Vem Ao caso

mensagem: Estrupiado Professor(Será mesmo):

Aprenda a ser mais humilde e menos escroto com seus alunos, pois o seu ar de deboche e a sua arrogância são extremamente NOJENTAS(a não ser que esta seja sua intenção).

Essas suas insana-psico-auto-analise provavelmente esconde um pseudo-algoz na sua mais irritante personalidade. Você.. olha fico até sem palavras para dizer o imenso ascuo e nojo que tenho da sua pessoa. Aprenda a ser simples e tudo se resolverá.

Quer brincar de falar difícil? Estou aberto para competições. Para seu governo, assisto todas as suas aulas e pelo contrário do que você esta achando, não faço parte dos vagabundos da classe.


Ass: Um aluno inconformado

Submit: envia

Email = fuck.the.teacher@loser.com“

Este é um e-mail pouco elegante. E se a internet tem uma virtude, é que ela tornou as pessoas mais corajosas. Mas se em texto me doeu, imagine se esse aluno resolve desfiar o terço ali, na minha frente, em meio às minhas palavras tão descosturadas, tão desalinhavadas. Acho que seria capaz de chorar, até. O que, diga-se de passagem, não é nenhuma novidade neste mexicano.

Professorar é um verbo regular. Não tem segredo. Ao menos na conjugação. Ah, sim. Professorar é doloroso demais. A ação, não a conjugação.

Eu tive alguns professores de quem tenho saudades. Não é a saudade de vê-los. Às vezes, os vejo. Tampouco nos falta contato. Há telefone, e-mail, Expresso de Prata, Viação Garcia. Carta - tão em desuso essas coisas arcaicas - também.

Tenho saudades de Mercedes. E de Atílio. Tenho saudades de Nanci, a minha professora da pré-escola, a cara da Perla. Tenho saudades também, menos um pouco, da Maria Sueko. Minha professora de matemática do Ginásio. Tempos depois, coitada da Maria Sueko - uma japonesinha de metro e meio e cara de brava - foi presa por estelionato. Fingiu ser uma mãe de santo e chantageou um pobre coitado, pedindo-lhe dinheiro. Na época, ficamos atordoados. Hoje entendo. Sou professor e recebo um parco holerite todo mês. Tenho saudades, ainda, de Flávia Bespalhok e Janete El Haouli. Essas não são estelionatárias, mas poderiam ser enquadradas por furto. Sem me deixar perceber, levaram um pedaço da minha alma. Aliás, minha alma está partida. Há pedaços em todos os lugares deste mundo. Em Tupã - na época da Maria Sueko - quando uma loja, boteco, butique, mercadinho ou quitanda era roubado, no dia seguinte ninguém trabalhava ali. E um papel sulfite com letra de mão era colado naquelas portas que se enrolam. ”Fechado por furto“. Eu deveria andar com um papel sulfite desses em mim. Tantos pedaços da minha pobre alma que roubam o tempo todo.

Professorar é perder pedaços de alma.

Quando eu era pequenino - do tamanho de um botão - havia festas no dia dos professores. Tinha bolo, coxinha fria, sanduíche de sardinha e refrigerante quente. Depois que eu virei professor, aluno algum - um ou dois, talvez - tenha me cumprimentado. ”Parabéns pelo seu dia, professor!“. Festa, nem pensar. Com as festinhas no dia 15/10, o professor ganhava de volta os pedaços roubados de sua alma. Eu pelo menos os devolvia aos meus.

Há um caminho longo na faculdade onde dou aula. Às vezes, parece interminável. É o trajeto entre a sala dos professores e a sala dos alunos. Sim, ficamos separados. Como ficam separados os lutadores de boxe antes do combate. E depois vem o caminho longo, até que se encontrem. Mas isso não é professorar. Professorar é outra coisa.

Professorar não tem nada a ver com diários de frequência.

Professorar não tem nada a ver com nota.

Professorar não é preencher quadradinhos com (.) ou (2).

Professorar não é aplicar provas e corrigir trabalhos.

Essa é a parte fácil do ofício.

Professorar, sequer, é abrir o holerite.

Professorar é diferente de ser professor.

Professorar começa no ”Boa Noite, pessoal. Tudo bem?“ (ou bom dia, depende do horário) e termina no ”a gente se vê na semana que vêm?“.

E entre um e outro, pedaços da alma são roubados.

Flávia e Janete eram minhas professoras que roubaram pedaços da alma. Ali o processo se inverteu. Ainda bem.

Sim. Este texto já vai longe demais. Eu sei.

É que esse e-mail foi doloroso.

E imagino não existir domínio ”loser“, para respondê-lo.

Então aqui o respondo:

Querido aluno:

Se por um acaso, até o final do semestre, você ficar com um pedaço da minha alma, me devolva, por favor. Coloque-o no escaninho. Na sala dos professores.

É uma pena que você me ache arrogante e tudo isso que me escreveu. Uma pena. Não sabe como professorar é deliciosamente doloroso. Não quero falar difícil. Aliás, não gosto de palavras malfeitas, essas que não servem para muita coisa e só servem para si mesmas. Quando tiver dúvidas, pergunte. Mas por favor - por favor - devolva o pedaço da minha alma que ficou com você.

Vou me esforçar para ser um melhor professor.

Vou me esforçar para ser um melhor aluno de vocês.

Grande abraço,

Rodrigo Manzano"

Publicado em 09 de maio de 2003 às 12:56 por manzano

Comentários

    • Meu marido é professor universitário. Ao ver que tinha levado um zero (por não saber escrever nem o português mínimo nem segundo as regras do jornalismo) o aluno escreveu um bilhete (e não assinou) com frases de nível de “você é só um faxineiro do jornal em que trabalha, seu merda” pra baixo. Sempre vai existir gente assim, Rodrigo, principalmente quem não sabe concordar gênero, usar vírgulas nem botar ponto final na própria vontade de ser arrogante. Pior:é covarde, porque quem tem algo a criticar deve fazê-lo, se não ao vivo, ao menos identificando-se. O anonimato é a mais covarde das personalidades. E o seu aluno parece que a veste como ninguém.
    • por Julia
    • 09.Mai.2003 às 13:14 - Permalink - Reportar
    Julia
    • É engraçado. A incapacidade da auto-crítica está em todo mundo mesmo. Eu sou assim, o Moraes, a igreja Católica, o Manzano, que sim sabe ser arrogante e não, não precisa se envergonhar disso e, sem dúvida, o aluno dele.

      Acho muito estranho! Muito mesmo! Os professores que me ensinaram a escrever, todos daqui de Curitiba, eram tidos (e acho que até eram) como arrogantes, prepotentes e, às vezes, me davam nojo. Mas me ensinaram. Não sei se é mal de quem sabe lidar bem com a língua. Ou se as pessoas ficaram extremamente rasas a ponto de achar que qualquer palavra bem dita, qualquer frase que concorde nos famosos gênero, número e grau, é vista como arrogância.

      Lembro da professora Anísia (que insistia em me chamar de JAMES ao invés de DJEIMES), da professora Vera Lúcia (que se vestia mal, mas escrevia bem), da Ângela (que vai ser minha orientadora na especialização) e que adorava ler nossas péssimas redações para a sala toda (prazer mórbido, talvez, mas que nos fazia rir muito), da Maria Lídia, Fidélis (a quem chamávamos Fodélis), do Miranda (que se auto-entitulava “o filho-da-puta do Miranda” e que nos fazia escrever 1000 vezes os erros de redação - isso ou tirar zero), o Carrera (a própria encarnação da arrogância) e, claro, a Carly. TODOS ARROGANTES E PREPOTENTES. TODOS INESQUECÍVEIS!
    • por james,
    • 09.Mai.2003 às 14:52 - Permalink - Reportar
    james,
    • E chega de auto-comiseração, Manzano!Coisa chata! E pare de bancar o Jesus Cristo. Batem em um lado e você dá o outro? Que é isso? “Querido aluno”, essa é boa!

      Esses alunos são uns burros mesmo! Pra chegar à faculdade passaram por, pelo menos, 11 anos de escola e mais um de cursinho. Será que não dá pra aprender nada nesse tempo todo? Por que querem fazer jornalismo? Não sabem que têm que aprender a escrever? Fala sério!
    • por james,
    • 09.Mai.2003 às 15:12 - Permalink - Reportar
    james,
    • Professor, sei como é difícil esta arte de ensinar... e sei que por muitas vezes o desejo de fazer com que as pessoas compreendam o que vc quer passar, te deixa irritado (assim penso).
      Posso não usar as vírgulas corretas, posso não ser sua melhor aluna, mas te respeito e agradeço por estar toda quinta-feira me ensinando a ser uma pessoa melhor....
      Beijos ...
      Sua aluna.
      E mesmo que não seja dia: FELIZ DIA DOS PROFESSORES..... VC MERECE...
    • por Sua aluna
    • 09.Mai.2003 às 22:10 - Permalink - Reportar
    Sua aluna
    • Dar a outra face não quer dizer sujeitar-se ao mal, apesar do que muitos pensam. Dar a outra face é revelar a natureza absurda do mal; é desmascará-lo. E foi o que você fez, Manzano. Parabéns.
    • por um aluno
    • 09.Mai.2003 às 23:54 - Permalink - Reportar
    um aluno
    • Legal este blog Manzano. Nele você chorou por descobrir que no meio de seus aunos tem alguns ainda que não cresceram o suficiente para terem um professor como você. Depois voce sentiu saudades dos professores que lhe deram um pedaço da alma. Então você sorriu ao lembrar das festas feitas para os seus queridos mestres e por finm você se derramou de amores por um aluno, procurando trata-lo como só um professor sabe fazer . Enfim, em todo o tempo você estava professorando...
      Parabéns.
    • por nicodemos
    • 10.Mai.2003 às 00:04 - Permalink - Reportar
    nicodemos
  1. Buana
    • Para um aluno que escreve “estrUpiado” e “ascUo” (poderia ser um escorregão dos dedos no teclado, mas as letras nem são vizinhas...) qualquer palavra com mais de 5 letras deve ser difícil para entender. Será que sabe o significado de arrogante?
    • por Luiz Fernando
    • 10.Mai.2003 às 17:28 - Permalink - Reportar
    Luiz Fernando
    • manzano, acho que vc deveria se inscrever como voluntário do Paiva Neto.
    • por marcelo, o filantropo
    • 10.Mai.2003 às 17:48 - Permalink - Reportar
    marcelo, o filantropo
    • acho que o programa “amigos da escola” tem mais a ver com a situação.
    • por flipper
    • 10.Mai.2003 às 17:49 - Permalink - Reportar
    flipper
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