Engraçado trabalhar no mundo corporativo e em esquema homeworking. Recebo a convocação para uma reunião no Itaim, de Pauta. O e-mail é exatamente esse.
"Quando: quinta-feira, 29 de maio de 2003 16:00-16:30 (GMT-03:00) Brasília.
Onde: Xxx"
A primeira coisa que eu pensei: será que essa maldita reunião vai ser em Brasília? Puta que pariu, nem reservei passagem. Depois que fui entender que é no horário de Brasília. Mas em São Paulo mesmo. Bem, o tempo que demoraria de avião daqui até BSB, é o que demoro de ônibus daqui até o Itaim. Dava na mesma.
Hoje eu conheci Naná. A dona da voz.
Esta história de professorar já vai longe demais.
Às vezes, eu queria passar despercebido na vida. E esse blog atrapalha um pouco.
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Às vezes eu acho tanta graça na vida. E não tem nada a ver com Fluoxetina. Nada mesmo.
Feliz Vesak para todos os seres
do Ocidente e
do Oriente.
Hoje é
Vesak.
Estou em crise professoral.
Culpa de um e-mail, desses e-mails que vêm sem nome e sem possibilidade de resposta. Eis que me chega essa mensagem e me põe a pensar sobre professorar.
Professorar é um verbo engraçado. Eu nunca tinha ouvido, até que M.S., minha professora de filosofia do Ensino Médio, falou dias desses para mim: “estou cansada de professorar”. Então o conjugo.
Eu professoro.
Tu professoras.
Ele professora.
Nós professoramos.
Vós professorais.
Eles professoram.
O e-mail que me chega:
"nome: Não Vem Ao caso
mensagem: Estrupiado Professor(Será mesmo):
Aprenda a ser mais humilde e menos escroto com seus alunos, pois o seu ar de deboche e a sua arrogância são extremamente NOJENTAS(a não ser que esta seja sua intenção).
Essas suas insana-psico-auto-analise provavelmente esconde um pseudo-algoz na sua mais irritante personalidade. Você.. olha fico até sem palavras para dizer o imenso ascuo e nojo que tenho da sua pessoa. Aprenda a ser simples e tudo se resolverá.
Quer brincar de falar difícil? Estou aberto para competições. Para seu governo, assisto todas as suas aulas e pelo contrário do que você esta achando, não faço parte dos vagabundos da classe.
Ass: Um aluno inconformado
Submit: envia
Email = fuck.the.teacher@loser.com“
Este é um e-mail pouco elegante. E se a internet tem uma virtude, é que ela tornou as pessoas mais corajosas. Mas se em texto me doeu, imagine se esse aluno resolve desfiar o terço ali, na minha frente, em meio às minhas palavras tão descosturadas, tão desalinhavadas. Acho que seria capaz de chorar, até. O que, diga-se de passagem, não é nenhuma novidade neste mexicano.
Professorar é um verbo regular. Não tem segredo. Ao menos na conjugação. Ah, sim. Professorar é doloroso demais. A ação, não a conjugação.
Eu tive alguns professores de quem tenho saudades. Não é a saudade de vê-los. Às vezes, os vejo. Tampouco nos falta contato. Há telefone, e-mail, Expresso de Prata, Viação Garcia. Carta - tão em desuso essas coisas arcaicas - também.
Tenho saudades de Mercedes. E de Atílio. Tenho saudades de Nanci, a minha professora da pré-escola, a cara da Perla. Tenho saudades também, menos um pouco, da Maria Sueko. Minha professora de matemática do Ginásio. Tempos depois, coitada da Maria Sueko - uma japonesinha de metro e meio e cara de brava - foi presa por estelionato. Fingiu ser uma mãe de santo e chantageou um pobre coitado, pedindo-lhe dinheiro. Na época, ficamos atordoados. Hoje entendo. Sou professor e recebo um parco holerite todo mês. Tenho saudades, ainda, de Flávia Bespalhok e Janete El Haouli. Essas não são estelionatárias, mas poderiam ser enquadradas por furto. Sem me deixar perceber, levaram um pedaço da minha alma. Aliás, minha alma está partida. Há pedaços em todos os lugares deste mundo. Em Tupã - na época da Maria Sueko - quando uma loja, boteco, butique, mercadinho ou quitanda era roubado, no dia seguinte ninguém trabalhava ali. E um papel sulfite com letra de mão era colado naquelas portas que se enrolam. ”Fechado por furto“. Eu deveria andar com um papel sulfite desses em mim. Tantos pedaços da minha pobre alma que roubam o tempo todo.
Professorar é perder pedaços de alma.
Quando eu era pequenino - do tamanho de um botão - havia festas no dia dos professores. Tinha bolo, coxinha fria, sanduíche de sardinha e refrigerante quente. Depois que eu virei professor, aluno algum - um ou dois, talvez - tenha me cumprimentado. ”Parabéns pelo seu dia, professor!“. Festa, nem pensar. Com as festinhas no dia 15/10, o professor ganhava de volta os pedaços roubados de sua alma. Eu pelo menos os devolvia aos meus.
Há um caminho longo na faculdade onde dou aula. Às vezes, parece interminável. É o trajeto entre a sala dos professores e a sala dos alunos. Sim, ficamos separados. Como ficam separados os lutadores de boxe antes do combate. E depois vem o caminho longo, até que se encontrem. Mas isso não é professorar. Professorar é outra coisa.
Professorar não tem nada a ver com diários de frequência.
Professorar não tem nada a ver com nota.
Professorar não é preencher quadradinhos com (.) ou (2).
Professorar não é aplicar provas e corrigir trabalhos.
Essa é a parte fácil do ofício.
Professorar, sequer, é abrir o holerite.
Professorar é diferente de ser professor.
Professorar começa no ”Boa Noite, pessoal. Tudo bem?“ (ou bom dia, depende do horário) e termina no ”a gente se vê na semana que vêm?“.
E entre um e outro, pedaços da alma são roubados.
Flávia e Janete eram minhas professoras que roubaram pedaços da alma. Ali o processo se inverteu. Ainda bem.
Sim. Este texto já vai longe demais. Eu sei.
É que esse e-mail foi doloroso.
E imagino não existir domínio ”loser“, para respondê-lo.
Então aqui o respondo:
”Querido aluno:
Se por um acaso, até o final do semestre, você ficar com um pedaço da minha alma, me devolva, por favor. Coloque-o no escaninho. Na sala dos professores.
É uma pena que você me ache arrogante e tudo isso que me escreveu. Uma pena. Não sabe como professorar é deliciosamente doloroso. Não quero falar difícil. Aliás, não gosto de palavras malfeitas, essas que não servem para muita coisa e só servem para si mesmas. Quando tiver dúvidas, pergunte. Mas por favor - por favor - devolva o pedaço da minha alma que ficou com você.
Vou me esforçar para ser um melhor professor.
Vou me esforçar para ser um melhor aluno de vocês.
Grande abraço,
Rodrigo Manzano"
“O coração do homem comum não tem raizes fixas.
No entanto, esse desenraizado se alegra com a Sabedoria,
porque lhe foi dado o coração do Buda,
o coração do Namo Amida Butsu.”
Asahara Saichi (1851-1933)