tolos devaneios tolos, II

parece

Tem sido engraçado este meu primeiro dia sem emprego diurno. E o mais engraçado ainda é que ele cai bem em primeiro de abril, o dia da mentira. É, até parece mentira que eu pude acordar agora há pouco, que não estou nem um pouco preocupado com tal e tal matéria ou com a gráfica, ou com isso ou aquilo. Parece mentira que não vou ter mais que ouvir a voz de S. me pedindo “descubra quem são os candidatos a deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente que já foram ou são jornalistas”. Parece mentira que X. não vai passar emburrada na minha mesa sem me cumprimentar como se fosse a rainha do mundo. Parece mentira que - por enquanto - não vou ter que atender a telefonemas de assessores de imprensa impertinentens reclamando do espaço ou do tom que dei para tal ou tal matéria. Parece mentira que depois de dois anos de trabalho que não parou nem nas férias - sim, me achavam onde quer que eu estivesse - eu estou parcialmente de férias. Parece mentira que vou conseguir terminar a leitura de “O Homem Duplicado”, de Saramago, que esperei ansiosamente e não passei da metade. Parece mentira que vou poder ver, em alguns dias, o seriado mais engraçado que conheço, The Nanny. Parece mentira que eles vão pagar os meus direitos trabalhistas. Parece mentira que não terei mais as malditas reuniões de follow up todas as segundas e sextas, embora não saiba o que isso significa. Parece mentira que não vou ter que tirar prints disso ou daquilo para já. Parece mentira que não vou ter que dizer a estudantes de jornalismo que se for possível, chamo-os para um estágio na revista. Parece mentira que não precisarei mais ouvir que “sou um humanista e não um executor. E que isso é um dom de Deus”. Parece mentira que não vou mais receber oitocentos e quarenta e sete bilhetes por dia da chefia com um recorte de jornal, um outro bilhete, uma matéria de TV ou coisa afim perguntando “rende matéria?”, quando não afirmando “rende matéria!” e perder o meu tempo para algo que não rende nem nota em jornal de escola. Parece mentira que não vou ter que engolir matérias pagas e transformá-las em borboletas. E que algumas delas viram até capa da revista. Parece mentira que não vou ter que ler o texto sofrível de um repórter que sequer sabe como se escreve. Parece mentira que não vou ser intimado a cafés da manhã enigmáticos onde vai ser lançado o produto que vai revolucionar o século (e no final das contas era um sutiã...). Parece mentira que não vou ter que aguentar egos de alguns publicitários que não sabem de nada, assim como eu. Parece mentira que não vou, por enquanto, ouvir pedidos do tipo faça um texto de seis páginas. Parece mentira que, por enquanto, não vão me chamar de incompetente.

Pois é.

Parece mentira.

Mas é verdade.


e não é

Que fosse mentira não receber com um sorriso um copo descartável de café feito pela Lúcia (que também foi mandada embora) logo na primeira hora do dia. Que fosse mentira não sentir o cheiro de pipoca de microondas invadindo a revista no meio da tarde. Que fosse mentira não poder mais ensaiar números que nunca foram apresentados: Sonho de Verão, com Luan e Vanessa ou Não se reprima, dos Menudos. Que fosse mentira o fim daquelas gargalhadas imensas que Catarina, Mariana, Rosângela e eu soltávamos ali no corredor. Que fosse mentira o fim do Pedro imitando S. coçando o umbigo e bebendo uísque. Que fosse mentira o dia em que o Marcos - técnico dos computadores - ia na redação e dizia que a rede ia cair e que teríamos que esperar (e esperávamos). Que fosse mentira as escapadas para a casa da árvore. Que fosse mentira toda a delicadeza de Seo Fernando Jorge, trazendo mimos e histórias ótimas, como a do dia em que conheceu a Rainha do Brasil na biblioteca da Assembléia Legislativa. Que fosse mentira a Dani se queixando do cheiro do cigarro, ou P. fumando maconha para ficar mais inspirado a escrever. Que fossem mentira os almoços que sempre duravam mais de uma hora em que falávamos de tudo. Que fossem mentira as noites no Bar das Primas, em que a Vívian tentava disfarçar a cara de bêbada antes de chegar em casa. Que fosse mentira até a minha intenção em escrever uma carta para a mesma Vívian, quando casada, convocando para uma reunião da revista à noite para que ela pudesse sair e beber com a gente. Que fosse mentira Gláucia acendendo seus incensos para espantar os maus espíritos. Que fosse mentira que um dia eu vi um espírito na cozinha da revista e deixei de invejar que já o havia visto. Que fosse mentira ver a Sandra chegando e saindo com seu violino e partituras, sempre sorrindo. Que fosse mentira o silêncio solícito de Rafael e o amor bonito que teve ao se demitir porque sua mulher foi injustamente demitida. Que fosse mentira o Paulo Toledo surpreendo-se quando, em uma loja de conveniência, lhe conto um segredo tão evidente. Que fosse mentira todo o tempo em que nos enganamos pensando “dessa vez vai entrar na gráfica no prazo”. Que fosse mentira um Vargas que, fugindo da ditadura chilena, veio passar férias no Brasil e nunca mais voltou, virou fotógrafo dos bons, astro da propraganda e era nosso na revista. Que fosse mentira, também, o dia em que simulamos a Pedro a chegada de uma nova chefia, Samanta, com direito a foto na mesa e tudo e ele ameaçou pedir as contas. Que fosse mentira ver a Solange bêbada insistindo que está bem. Que fosse mentira ver Lucy se casando com o príncipe da vida dela e se mudando para a Alemanha. Que fosse mentira a família Mala, Pochete, Frasqueira e Porta-Moeda. Que fossem mentiras as festas tão rápidas para comemorar os aniversários (a minha, com sorvete da Kibon). Que fosse mentira que Ana Paula Padrão cortejou a bela blusa de Mariana Duccini no meio da entrevista. Que fosse mentira que Mariana e eu tenhamos conversado com Neide Duarte, a melhor jornalista do Brasil. E que fosse mentira que ela ligaria em casa e deixaria um recado na secretária eletrônica elogiando nosso texto. Que fosse mentira que nessas idas e vindas, sim, eu até conhecesse o Ernesto, aquele que convidou prum samba e mora no Brás (ele vive!).

Pois é.

Que fosse mentira.

Mas é verdade.


produto

No final das contas, as pequenas coisas valem mais que as grandes. As pequenas são superiores e a conta deu positivo.

Publicado em 01 de abril de 2003 às 12:54 por manzano

Comentários

    • Pra mim não deu, não. Agora não tenho mais a desculpa de te vender matéria para tentar, quem sabe um dia, ganhar a sua amizade. Que bom que ainda tenho a Catarina, e espero que ela também não se vá.
      Boa sorte, Manzano. Porque talento você tem de sobra.
    • por Julia
    • 01.Abr.2003 às 15:45 - Permalink - Reportar
    Julia
  1. manzano
    • E vou achar vocês onde? Principalmente você, que não responde e-mails...
      Fiquei triste, menos por causa das demissões e mais porque é muito, muito ruim ficar sem emprego, mas pior ainda é odiar o que se faz, e eu sei porque passei por isso. Mas, coisa de canceriana, a revista era o porto seguro onde bastava passar a mão no telefone e ligar. Bobeira, né? Passa.
    • por Julia
    • 01.Abr.2003 às 18:35 - Permalink - Reportar
    Julia
    • Parece mentira que um jornalista que escreve deste jeito pode estar desempregado/.Ainda acho que é primeiro de abril.
    • por nicodemos
    • 01.Abr.2003 às 23:26 - Permalink - Reportar
    nicodemos
    • Bom, Nicodemos pense por um lado, ele não é um desempregado qualquer, ele agora é livre e digo com conhecimento de causa, já trabalhei lá tb e já fui demitida, tb...
    • por Sandra
    • 02.Abr.2003 às 01:05 - Permalink - Reportar
    Sandra
    • Bom, querido Manzano...
      achei lindo o que vc escreveu aqui, me lembrou dos momentos ótimos que passamos juntos na revista, penso que foi bom enquanto durou e que tinha que ser assim...
      ainda me lembro das nossas reuniões secretas da plebe e as escapadas rápidas para o bar das primas, sem que os chefes no vissem. e o tempo que passávamos escondidos no cozinha...

      bom, vamos nessa... que tem muito a ser feito ainda.
      e vc precisava sair de lá, vc sabe disso, vc é muito bom para afundar com o Titanic da Mme. Mão de Ferro e do Capitão Barril de Chopp.
    • por Sandra
    • 02.Abr.2003 às 01:10 - Permalink - Reportar
    Sandra
    • vai ficar tudo bem. pense no I ching, da metóra dos círcúlos...que as coisas tem um movimento próprio...é simples e o que te espera é algo realmente melhor.
    • por helena
    • 04.Abr.2003 às 11:16 - Permalink - Reportar
    helena
    • vai ficar tudo bem. pense no I ching, da metóra dos círcúlos...que as coisas tem um movimento próprio...é simples e o que te espera é algo realmente melhor.
    • por helena
    • 04.Abr.2003 às 11:16 - Permalink - Reportar
    helena
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