dúvida

Eu não sei se a minha vida está tão ordinária que nada tenho a contar ou se esse blog tão tolo está com os dias contados. Não tenho vontade alguma de escrever aqui.


 

tesoura

Cortei o cabelo. De fato. E fiquei uns 10 anos mais novo. Agora faço a barba e perco mais 5 anos. E então não me contratam por falta de experiência...

pergunta fatal
A Elaine, que cortou o meu cabelo, segura a mecha longa e pergunta: “tem certeza?”. A resposta vem certeira: “isso não é pergunta que se faça, menina!”. Então cortamos. Duas horas para cortar. Aos poucos. Até ficar do jeito certo e de certo jeito.


 

news

Não me deixaram ficar desempregado, andando de pijamas pela casa e sem tomar banho e fazer a barba por dois ou três dias. Ou seja. Arrumei emprego novo. Ou mais ou menos, não sei.


 

guerra

Se eu pudesse, faria uma guerrilha. Pegaria uma metralhadora das mais potentes (alguém conhece?) e atiraria nestes filhos da puta que inventaram a cocaína, a heroína, o crack, o diazepan, a fluoxetina, as anfetaminas, o extasy, os comprimidinhos coloridos e todas as inas da vida que fazem com que a vida tão vivível (por mais ordinária que seja) seja destruída. Não, eu não sou moralista. Mas estes filhos da puta - que inventaram tudo isso - certamente tem uma vidinha bem tranquila e besta e não precisam de seus inventos maravilhosos que revolucionaram o século XX.


 

ouvidos

Eu tenho um bom ouvido mas uma péssima memória acústica. E um repertório muito limitado, ainda mais de músicas internacionais. Então outro dia eu peguei um táxi e tocou uma canção que me deixou incomodado. Todo momento eu voltava a música no CD Player do taxista. E fui ouvindo, ouvindo para guardar a melodia e perguntar a alguém que música era aquela. Mas me esqueci. Então hoje, voltando da academia, ouço a música tocando numa loja de CD. Na maior cara de pau, foi perguntar.
- Escuta, que CD é este que está tocando.
- Aquele que está em cima do aparelho.
Fui lá e peguei. E o cara já havia colocado na primeira música, como se eu fosse um interessado em ver o repertório todo do disco. Nada disso. Disse
- Que música era aquela que estava tocando.
- Ué, Wuthering heights, de Kate Bush.
Fui repetindo o nome da música até chegar em casa. O Esper baixou no Kazaa. E baixou o clip. Então estou me divertindo.
É tão bom descobrir coisas depois que todo mundo. Essa música - que evidentemente já tinha ouvido antes do dia do táxi - me parece tão nova. Uma novidade tão velha. Uma delícia.
É uma música libertadora.
É a música da minha demissão.
É a música da minha libertação.
Viva Kate Bush. E Cathy, e “O Morro dos ventos uivantes”.


 

parece

Tem sido engraçado este meu primeiro dia sem emprego diurno. E o mais engraçado ainda é que ele cai bem em primeiro de abril, o dia da mentira. É, até parece mentira que eu pude acordar agora há pouco, que não estou nem um pouco preocupado com tal e tal matéria ou com a gráfica, ou com isso ou aquilo. Parece mentira que não vou ter mais que ouvir a voz de S. me pedindo “descubra quem são os candidatos a deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente que já foram ou são jornalistas”. Parece mentira que X. não vai passar emburrada na minha mesa sem me cumprimentar como se fosse a rainha do mundo. Parece mentira que - por enquanto - não vou ter que atender a telefonemas de assessores de imprensa impertinentens reclamando do espaço ou do tom que dei para tal ou tal matéria. Parece mentira que depois de dois anos de trabalho que não parou nem nas férias - sim, me achavam onde quer que eu estivesse - eu estou parcialmente de férias. Parece mentira que vou conseguir terminar a leitura de “O Homem Duplicado”, de Saramago, que esperei ansiosamente e não passei da metade. Parece mentira que vou poder ver, em alguns dias, o seriado mais engraçado que conheço, The Nanny. Parece mentira que eles vão pagar os meus direitos trabalhistas. Parece mentira que não terei mais as malditas reuniões de follow up todas as segundas e sextas, embora não saiba o que isso significa. Parece mentira que não vou ter que tirar prints disso ou daquilo para já. Parece mentira que não vou ter que dizer a estudantes de jornalismo que se for possível, chamo-os para um estágio na revista. Parece mentira que não precisarei mais ouvir que “sou um humanista e não um executor. E que isso é um dom de Deus”. Parece mentira que não vou mais receber oitocentos e quarenta e sete bilhetes por dia da chefia com um recorte de jornal, um outro bilhete, uma matéria de TV ou coisa afim perguntando “rende matéria?”, quando não afirmando “rende matéria!” e perder o meu tempo para algo que não rende nem nota em jornal de escola. Parece mentira que não vou ter que engolir matérias pagas e transformá-las em borboletas. E que algumas delas viram até capa da revista. Parece mentira que não vou ter que ler o texto sofrível de um repórter que sequer sabe como se escreve. Parece mentira que não vou ser intimado a cafés da manhã enigmáticos onde vai ser lançado o produto que vai revolucionar o século (e no final das contas era um sutiã...). Parece mentira que não vou ter que aguentar egos de alguns publicitários que não sabem de nada, assim como eu. Parece mentira que não vou, por enquanto, ouvir pedidos do tipo faça um texto de seis páginas. Parece mentira que, por enquanto, não vão me chamar de incompetente.
Pois é.
Parece mentira.
Mas é verdade.

e não é
Que fosse mentira não receber com um sorriso um copo descartável de café feito pela Lúcia (que também foi mandada embora) logo na primeira hora do dia. Que fosse mentira não sentir o cheiro de pipoca de microondas invadindo a revista no meio da tarde. Que fosse mentira não poder mais ensaiar números que nunca foram apresentados: Sonho de Verão, com Luan e Vanessa ou Não se reprima, dos Menudos. Que fosse mentira o fim daquelas gargalhadas imensas que Catarina, Mariana, Rosângela e eu soltávamos ali no corredor. Que fosse mentira o fim do Pedro imitando S. coçando o umbigo e bebendo uísque. Que fosse mentira o dia em que o Marcos - técnico dos computadores - ia na redação e dizia que a rede ia cair e que teríamos que esperar (e esperávamos). Que fosse mentira as escapadas para a casa da árvore. Que fosse mentira toda a delicadeza de Seo Fernando Jorge, trazendo mimos e histórias ótimas, como a do dia em que conheceu a Rainha do Brasil na biblioteca da Assembléia Legislativa. Que fosse mentira a Dani se queixando do cheiro do cigarro, ou P. fumando maconha para ficar mais inspirado a escrever. Que fossem mentira os almoços que sempre duravam mais de uma hora em que falávamos de tudo. Que fossem mentira as noites no Bar das Primas, em que a Vívian tentava disfarçar a cara de bêbada antes de chegar em casa. Que fosse mentira até a minha intenção em escrever uma carta para a mesma Vívian, quando casada, convocando para uma reunião da revista à noite para que ela pudesse sair e beber com a gente. Que fosse mentira Gláucia acendendo seus incensos para espantar os maus espíritos. Que fosse mentira que um dia eu vi um espírito na cozinha da revista e deixei de invejar que já o havia visto. Que fosse mentira ver a Sandra chegando e saindo com seu violino e partituras, sempre sorrindo. Que fosse mentira o silêncio solícito de Rafael e o amor bonito que teve ao se demitir porque sua mulher foi injustamente demitida. Que fosse mentira o Paulo Toledo surpreendo-se quando, em uma loja de conveniência, lhe conto um segredo tão evidente. Que fosse mentira todo o tempo em que nos enganamos pensando “dessa vez vai entrar na gráfica no prazo”. Que fosse mentira um Vargas que, fugindo da ditadura chilena, veio passar férias no Brasil e nunca mais voltou, virou fotógrafo dos bons, astro da propraganda e era nosso na revista. Que fosse mentira, também, o dia em que simulamos a Pedro a chegada de uma nova chefia, Samanta, com direito a foto na mesa e tudo e ele ameaçou pedir as contas. Que fosse mentira ver a Solange bêbada insistindo que está bem. Que fosse mentira ver Lucy se casando com o príncipe da vida dela e se mudando para a Alemanha. Que fosse mentira a família Mala, Pochete, Frasqueira e Porta-Moeda. Que fossem mentiras as festas tão rápidas para comemorar os aniversários (a minha, com sorvete da Kibon). Que fosse mentira que Ana Paula Padrão cortejou a bela blusa de Mariana Duccini no meio da entrevista. Que fosse mentira que Mariana e eu tenhamos conversado com Neide Duarte, a melhor jornalista do Brasil. E que fosse mentira que ela ligaria em casa e deixaria um recado na secretária eletrônica elogiando nosso texto. Que fosse mentira que nessas idas e vindas, sim, eu até conhecesse o Ernesto, aquele que convidou prum samba e mora no Brás (ele vive!).
Pois é.
Que fosse mentira.
Mas é verdade.

produto
No final das contas, as pequenas coisas valem mais que as grandes. As pequenas são superiores e a conta deu positivo.


 
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