E ontem naveguei em busca de um piano usado. Pode ser um Fritz Dobbert ou Essenfelder. Três pedais. Preto. De armário. Daqueles que caibam em apartamento. Quero pagar no máximo 2 mil reais. A vista ou divididos, tanto faz. O que quero é um piano usado na minha sala.
Eu estudei piano.
Entrei no conservatório quando tinha 11 anos. Era tarde demais. Se conseguisse um ano em um ano - o que as vezes era impossível - sairia formado aos 20 anos. E não deu. Aos 18, cursinho pré-vestibular e a paranóia de passar nas provas. Sem piano. Sem alegria do momento de arrebatamento. Minha ex-professora de piano se chama Silmar. Minha ex-professora de teoria musical se chama Elvira e é descendente de letos. Elvira também me dava aula de Harmonia.
Quando entrei no piano, foi porque meu sonho era tocar a Valsa Brilhante de Chopin, a nº 1. É uma valsa difícil. Conhecia do Tom e Jerry e só fui descobrir que era Brilhante e de Chopin nas aulas do Conservatório Carlos Gomes em Tupã. A escola era um grande corredor, muito comprido, com diversas salas. E uma sala de aula grande para as aulas teóricas, com carteiras para duplas sentarem juntas e uma lousa com um pentagrama pintado à tinta branca. Eram ali onde ficavam as notas. Eu não gostava mesmo, nem um pouco, da clave de dó. Dava dó.
Um dia, estava na porta do conservatório. Então parou um menino de bicicleta na frente da escola. Eu também ia de bicicleta. Ele virou para mim e perguntou se ali havia fitas legais de Mega System. Eu, não entendendo a pergunta, fiz uma cara de ponto de interrogação. Então o menino se explicou: “ué, aqui não é Carlos Games?”. Então eu ri.
Outro dia, no meio da aula. Me lembro: tocava Hanon, o terror das escalas. Entrou um bêbado na sala. E perguntou onde estava Carlos Gomes, afinal de contas o compositor estava devendo um dinheiro para ele há anos. E eu ri. Muito.
Mas ontem me deu uma saudade grande das aulas de piano no Conservatório. Até mesmo do dia em que a Silmar pegou a minha partitura de Bach - a do pequeno livro de Ana Madalena - e rasgou. “Falta emoção!”, gritou ao meu ouvido. Tenho saudades.
Então ontem coloquei a Valsa Brilhante de Chopin no aparelho de som e toquei a valsa no carpete. Esper passa e diz: tudo bem, Linus?
Que saudade de um piano. E me lembro do meu consolo de nunca ter tido um piano em casa. Era de Alberto Caiero o poema que recitava para mim mesmo quando o desejo doía.
“Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem ...
Para que é preciso ter um piano?
o melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.”
(Alberto Caiero - XI)
PS - Quem souber ou tiver um piano à venda, me escreva.
Publicado em 16 de março de 2003 às 12:03 por manzano
Não é o correr dos rios, mas o correr das notas fazem o correr dos rios, o cantar dos pássaros, o sussurrar do ventos, o desfolhar do outono... e toca os corações. Toque Manzano, não sufoque o dom.