bye

Acabei de ser demitido da revista. Era tudo o que eu queria. Mas limpar mesas e gavetas com coisas de dois anos aqui é uma coisa que dói. Dói.


 

afronta

Lembram-se de quando eu vim de bermuda ao trabalho e me repreenderam? Pois é. Neste mês - mesmo com dinheiro em caixa, parece-me - não me pagaram um terço do salário, não me explicam a razão e nem me dão previsão. Hoje vim de chinelo havaianas. E estou andando para lá e para cá, arrastando os chinelos para que todos percebam. Vamos ver no que dá.


 

coisas que me vieram à pensa nesta manhã

Há quanto tempo não vejo o sol das dez horas?
Que delícia é olhar as pessoas correndo.
Como eu queria de novo uma lapiseira Faber Castell 0,7.



 

mensagem na garrafa

Este que vos escreve está cansado.
Cansado de ver as coisas tortas.
Cansado de sofrer calado.
Cansado de obedecer.
Cansado de dizer sim.
Cansado de sorrir.
Cansado de escrever.
Cansado de falar sobre as mesmas coisas
(internacionalização, guerra, mídia, jornalismo...).
Cansado de pagar contas.
Cansado de ser (ou se fazer) de vítima.
Cansado de ouvir o super-ego.
Cansado de ignorar o inconsciente.
Cansado de sentar-se nesta cadeira onde está.
Cansado de ouvir as mesmas coisas.
Cansado de se lembrar da hora dos remédios.
Cansado de ser simpático.
Cansado de ser legal.
Cansado de ser correto.
Cansado de decupar fitas.
Cansado de cansar os dedos.
Cansado, apenas.


 

propaganda

Posso fazer propaganda deste blog de duas maneiras.

1
Quer ver um ato corajoso e delicado? Clique aqui.

ou

2
Quer ver tetas de fora? Clique aqui.

Você escolhe o caminho. O destino é o mesmo. Igual chegar na praia pela Ayrton Senna ou pela Imigrantes. Tanto faz.


 

news VII

Talvez eu peça demissão.


 

news VI

Estamos em fechamento na revista.


 

news V

Cortei as unhas hoje.


 

news IV

Estou sem fazer a barba há uma semana.


 

news III

Estou fumando mais.


 

news II

Estou ficando magro.


 

news I

Não estou nem aí para a Guerra.


 

amnésia

Tinha tanta coisa pra contar, tanta, que esqueci.


 

ego

E ontem, ao mandar um e-mail para a arte dizendo que não estava aguentando mais tanto trabalho, finalizei com um “Sou Manzano, mas não sou Deus...”. Na primeira hora do dia, a Mariana, que recebeu cópia do e-mail respondeu “Modéstia e água benta não fazem mal a ninguém”. Certa ela.


 

sustenido

E ontem naveguei em busca de um piano usado. Pode ser um Fritz Dobbert ou Essenfelder. Três pedais. Preto. De armário. Daqueles que caibam em apartamento. Quero pagar no máximo 2 mil reais. A vista ou divididos, tanto faz. O que quero é um piano usado na minha sala.
Eu estudei piano.
Entrei no conservatório quando tinha 11 anos. Era tarde demais. Se conseguisse um ano em um ano - o que as vezes era impossível - sairia formado aos 20 anos. E não deu. Aos 18, cursinho pré-vestibular e a paranóia de passar nas provas. Sem piano. Sem alegria do momento de arrebatamento. Minha ex-professora de piano se chama Silmar. Minha ex-professora de teoria musical se chama Elvira e é descendente de letos. Elvira também me dava aula de Harmonia.
Quando entrei no piano, foi porque meu sonho era tocar a Valsa Brilhante de Chopin, a nº 1. É uma valsa difícil. Conhecia do Tom e Jerry e só fui descobrir que era Brilhante e de Chopin nas aulas do Conservatório Carlos Gomes em Tupã. A escola era um grande corredor, muito comprido, com diversas salas. E uma sala de aula grande para as aulas teóricas, com carteiras para duplas sentarem juntas e uma lousa com um pentagrama pintado à tinta branca. Eram ali onde ficavam as notas. Eu não gostava mesmo, nem um pouco, da clave de dó. Dava dó.
Um dia, estava na porta do conservatório. Então parou um menino de bicicleta na frente da escola. Eu também ia de bicicleta. Ele virou para mim e perguntou se ali havia fitas legais de Mega System. Eu, não entendendo a pergunta, fiz uma cara de ponto de interrogação. Então o menino se explicou: “ué, aqui não é Carlos Games?”. Então eu ri.
Outro dia, no meio da aula. Me lembro: tocava Hanon, o terror das escalas. Entrou um bêbado na sala. E perguntou onde estava Carlos Gomes, afinal de contas o compositor estava devendo um dinheiro para ele há anos. E eu ri. Muito.
Mas ontem me deu uma saudade grande das aulas de piano no Conservatório. Até mesmo do dia em que a Silmar pegou a minha partitura de Bach - a do pequeno livro de Ana Madalena - e rasgou. “Falta emoção!”, gritou ao meu ouvido. Tenho saudades.
Então ontem coloquei a Valsa Brilhante de Chopin no aparelho de som e toquei a valsa no carpete. Esper passa e diz: tudo bem, Linus?
Que saudade de um piano. E me lembro do meu consolo de nunca ter tido um piano em casa. Era de Alberto Caiero o poema que recitava para mim mesmo quando o desejo doía.
“Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem ...
Para que é preciso ter um piano?
o melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.”
(Alberto Caiero - XI)

PS - Quem souber ou tiver um piano à venda, me escreva.


 

desejo

“eu só quero apenas uma pausa de mil compassos”

necessidade
“eu só quero apenas uma pausa de mil compassos”


 

ali mesmo

alguma coisa dói.


 

mas a tristeza...

“... penso que venha de ancestralidades machucadas” (citando Manoel de Barros).


 

brinde

Ah, sim. Eu mesmo, o maníaco dos concursos de frases, fui sortudo dessa vez. Houve um prêmio para jornalistas - promovido pela assessoria da Palm - para quem elaborasse a melhor frase respondendo à pergunta: “Que loucura de carnaval você faria por um Palm Zire?”. Eu fui um dos três que ganhou um Palm Zire zerinho zerinho. Vou receber dias desses direto das mãos de Leci Brandão, a jurada do prêmio. Sim, ganhei um desses concursos.


 

Nyu Butsu Shiki

Essa semana fui oficialmente considerado budista. Comprei um oratório, uma imagem do buda, um sino, um castiçal, um incensário e as placas dos meus antepassados. Levei para o templo, em uma cerimônia que pensei demoraria apenas 20 minutos. “Fique esperando aqui, Elias [o taxista]”. A cerimônia durou quase duas horas. Mas valeu a pena. Fui abstraido dessa São Paulo doida e doída, destes dias tão tenebrosos e olhei para mim mesmo - recomendação da monja Fabiana, que celebrou a cerminônia - para descobrir que sou imperfeito e tenho dos defeitos do mundo os mais feios. Mas agora, todos os dias, 20 minutos de sutra e meditação pela manhã e pela noite em frente ao oratório. Alguma coisa vai mudar. Em mim, evidentemente.


 

minas

Ontem estive em BH. Foi para uma fala rápida. Uma ONG de defesa da qualidade na televisão - a TVER - me chamou para falar sobre o que eu quisesse. Falei sobre o programa Hermes e Renato, da MTV (elogiosamente, claro), defendi o Ratinho e a bundas e peitos na televisão e falei da diferença entre crítica e moralismo, violência explícia e violência sutil, a pior delas. Acho que gostaram.

palitos
Mas com os olhos abertos e sem dormir a noite toda, quase perdi o vôo de volta. Até meu nome chamaram na sala de embarque da Pampulha e eu dormia como uma criança de rua, ali na poltrona mais ou menos confortável. Até que um senhor veio me acordar e perguntou se eu não pegaria o vôo 1609. Sim. Estavam todos no avião. Só faltava eu. Coisa de star.


 

repente

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

Rico porque tem dinheiro
Tem um nome de barão
veve seu escritório
Só passeia de avião
Custa mais de um vigia
Trabalhando noite e dia
Vigiando o casarão

Já o pobre é atrasado
Sempre sobe de navela
A rua que o pobre mora
A lama dá na canela
O vigia do homem pobre
Na porta é uma cadela

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

Filho do rico quando chora
A mãe diz “não chore não”
Vem pra sala filhinho assistir televisão
Meia noite papai leva
Prá passear de avião

Filho do pobre quando chora
Leva logo uma porrada
A mãe começa dizendo “cala boca Zé Buchada”
Se tu chorar de novo,
vou dar outra cacetada

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

Cachorro do homem rico
É um cachorro valentão
Um é da raça de fila, dóbi, pastor alemão
mordendo a perna dum pobre
Pode comprar o caixão

Cachorro do pobrezinho
É um tal do vira-lata
Já anda todo envergado
De tanto comer batata
Se latir muito de noite
Os vizinho com raiva mata

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

Sapato do homem rico
Você sabe como é
É um sapato bom
Que nunca cria chulé
Passa um ano dentro d´água
Não molha um dedão do pé

Sapato do pobrezinho
É feio e não tem cadarço
Tem dois palmo de altura
Num tal cavalo de aço
Cada passada que dá
Da sola cai um pedaço

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

A mulher do homem rico,
se vai a maternidade
Dá à luz uma criança
Digo com sinceridade
Ganha um milhão de presente
De alta sociedade

A mulher do pobrezinho
quando o filho vai ganhar
o presente que ela ganha
é bolacha e guaraná
E um balaio de chupeta
Que é pro guri chupá

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

A filha do homem rico
Só pensa em ser grã-fina
Faz curso pra engenheira
De qualidade grã-fina
Quando não se forma aqui
Se forma na Argentina

E a filha do pobrezinho
Só pensa em ser fofoqueira
Muitas se perde na vida
Dançando na gafieira
Aquela mais sabida
Trabalha de piniquera

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

O filho do homem rico
Tem o maior aposento
Bota a nega na garupa
Duma DV400
Dá cada breque na pista
Que o chão fica cinzento

O filho do pobrezinho
Só passeia de jerico
Bota a nega na garupa
E sai andando tico-tico
Se o jegue der um peido
O cachimbo cai do bico

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

O rico leva a família
Para o salão de beleza
Manda cortar o cabelo
E na pele faz limpeza
A filha volta tão linda
que parece uma princesa

O pobre leva a família
Praquele salão lá, fraco
Manda cortar o cabelo,
manda rapar o sovaco
O filho volta, parece
Um filhote de macaco

O rico é quem vive bem
O rico é quem vive bem
Pra o rico é sobrando tudo
E o pobre que nada tem

[letra de Pinto e Rouxinol. Cantado pelas repentistas Terezinha & Lindalva]

Engraçado e triste, não?


 

cigarro mágico

E ontem, esperando o ônibus para voltar da aula para casa, às onze horas da noite na Francisco Matarazzo, me encontro com uma típica família, ali, à espera do mesmo ônibus que eu. E falamos sobre o jogo do São Paulo x Portuguesa (eles estavam no jogo) e falamos da vida, e falamos de Recife e de Olinda, de onde eles são, e falamos do desemprego. E o ônibus não chegava. Fazia quarenta minutos que eles esperavam, ali, parados. Homem, mulher e menina. Então eu disse a eles: “Querem ver? É sempre assim: eu acendo um cigarro e o ônibus aparece!”. E o fiz. E dois tragos depois, apareceu o 7020. Ele mesmo. E o homem pernambucano saiu alardeando - desde o motorista até os passageiros que estavam perto dele - que eu fumo um cigarro mágico que faz ônibus atrasados acelerarem.


 

olhos de ver

Então eu nunca tinha prestado atenção naquele prédio de esquina ali perto da Praça da República. E quando esperava o 7020 [Belém-Bonfiglioli] vi. Brotou ali um prédio azul. Certeza eu tenho: ele não era azul. Ficou. Mas ficou assim, derrepenti? Eu tenho visto somente as coisas prontas, e não o caminho delas.
Palavra da salvação.
Graças a deus.


 

punk

A coisa mais punk que fiz nestes últimos tempos, acreditem, foi uma aula de Yoga. Fui tentar não-sei-que-posição-lá em que tínhamos que ficar com a cabeça no chão e as pernas para o alto e, tibum, cai do alto dos meus dois metros, de costas. Sofro até hoje.


 

escovas de dente

Como contar isso?
Bem, antes, eu dividia uma cama de casal com um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro. Agora, ali, há uma pessoa. Ou seja: casei-me. E troquei a aliança de mão.


 

trator

A sensação que tenho hoje é que um trator passou em cima de mim. Logo de manhã, aula. Sim, aula. Pensei que não fosse aparecer ninguém, mas apareceram duzia e poucos alunos. Inclusive a idolatrada-típica Suzana, que, aliás, foi entrevistada da Carta Capital da semana passada. Essa aluna vai longe.


 

rei momo

Eu não sei o que é carnaval. Estou lendo mais que um presidiário nestes dias de folia. Comecei no sábado, livros espalhados pelo chão da sala. Três Manoeis de Barros - entre eles o maravilhoso Livro sobre Nada, que já presenteei ao Chico Viana - um livro de perfis de mulheres chinesas, As boas mulheres da China, de Xinran, dois livros sobre budismo e Cultura de massa na Idade Média e no Renascimento, de Bakhtin. Carnaval? Hã?


 
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