A coisa mais feia de um fechamento são as páginas em branco que brotam, esperando seus textos. Ontem mesmo, quando comecei a respirar aliviado, apareceram mais 16 páginas, ou seja, um caderno inteiro, para preencher com bobagens.
Subvertei-vos a Cristo
Seu verdadeiro nome, Carlos Alberto Libânio Christo, mantém apenas uma relação com o ofício. O nome do salvador cristão. Assim como a do próprio Cristo, a trajetória de vida de Frei Betto confunde-se com os desejos e lutas populares de seu tempo. E da mesma forma que o Prometido dos Hebreus, Betto não teve medo de tomar partido. Quase literalmente, já que representa um dos principais articuladores do Partido dos Trabalhadores, que, pela primeira vez, chega ao poder.
Frei Betto, ao contrário das figuras clericais oferecidas pela História e pela literatura como maldosamente oportunistas nas relações com o poder político, não perseguiu, exatamente, o poder. Ao menos, não para si. Foi no trabalho com as bases que fundamentou sua profissão de fé, o que lhe rendeu, inclusive, episódios absolutamente dolorosos, como o período de prisão e tortura durante o regime militar. Não havia como escapar. Se, por um lado, seu pensamento calcado na Teologia da Libertação poderia colocá-lo em risco, por outro, a atividade jornalística – que ele exerceu, chegando, inclusive, a chefe de reportagem da extinta Folha da Tarde – facilitava o trânsito, a compreensão e informações privilegiadas daquele contexto.
Hoje, Frei Betto ainda dedica grande parte do seu tempo para os movimentos populares, dividindo-o com a literatura. É pai de mais de quarenta livros, entre obras individuais e coletivas, ficção ou ensaios. Se pudesse, Frei Betto não faria outra coisa. É um viciado nas palavras. E na oração. “As duas coisas que mais gosto de fazer são orar e escrever, e pretendo fazer melhor as duas coisas”, compromete-se.
Agora que Lula chega ao poder, Frei Betto se posiciona no quadro político como um importante nome da articulação entre os segmentos mais marginalizados da sociedade – para quem a Igreja Católica habitualmente presta assistência através das Pastorais – e o PT, que, depois de 20 anos de luta política, atinge a posição de status quo. A paciência e as habilidades de um bom mediador, o frei dominicano já pôde exercitar quando foi um dos responsáveis pela abertura de Fidel Castro à atuação religiosa em Cuba.
Ao dar esta entrevista a Mariana Duccini, Pedro Venceslau, Sinval de Itacarambi Leão, Rodrigo Manzano e Catarina Ferraz, Frei Betto assumiu um compromisso: que, caso o PT seja conivente com algum tipo de corrupção nas esferas do poder, retira seu apoio, lembrando-se do lema com o qual atuava na militância nos anos 60: “o revolucionário pode perder tudo, o emprego, a vida, a família, o dinheiro. Menos a moral”.
Palavra da Salvação.
(PS. Finalmente usei em algum lugar a frase que gosto de usar, descontextualizada, aqui no blog. Faltou só o 'graças a deus')
Estou num momento crucial da minha carreira. Ou fico trabalhando, garanto emprego e salário, ou então caio fora. O estopim é, digamos, um comportamento nada ético editorialmente. Então, a mãe da
Catarina, uma típica mineira católica, fervorosa e devota de todos os santos em especial de Nossa Senhora da Conceição, Santa Rita de Cássia e Nossa Senhora de Fátima, está rezando por mim nesta manhã, a pedido da filha. Acendeu uma velas. E meu coração, ansioso por paz, espera.
Parece brincadeira, piada ou hipocondria. Mas não é. Toda vez que o fechamento começa a chegar, minhas pernas param de funcionar. Fico manco. E vou andando como se tivessem pedrinhas dentro do meu sapato. E tenho que escorar nas paredes.
affairs
Hoje parece que uma síndrome romântica invadiu o centro. Em apenas um quarteirão e meio, que divide minha casa da revista, vi quatro casais se beijando, encostados em muros, embaixo do telefone público, na porta de um floricultura e em um café. Não eram bonitos. Nem elas, nem eles. Mas eram gente, dessa gente tão bela, tão generosa nos beijos, remadores contra às marés deste dia de greve de ônibus e trânsito parado o dia todo. Esses casais que se beijam, na rua, sob o sol do meio dia, enchem meu coração de esperança.
entrevista
Na verdade, aquela entrevista em que não acreditava, de fato, não aconteceu. Seria com o Fernando Henrique Cardoso. Estava quase marcado, mas um imprevisto do meio de campo, no contato com o dono da revista, deve ter atrapalhado. Então, em cima da hora, entrevistamos o Frei Betto, ontem. Em São Paulo, chovia. Chovia e parava. E na hora em que sai de casa - a entrevista estava marcada para as nove horas - quase chorei. O que eu estava fazendo, na Avenida Rio Branco à procura de um táxi? O que me motiva a sair de casa para fazer uma entrevista no meu único?
Frei Betto respondeu.
Palavra da salvação.
Graças a Deus.
Eu não quero mais ser jornalista. Não desse jeito.
Estamos em trabalho. Aliás, até agora só chegou o incompetente aqui.
- Você não conseguiu porque é incompetente, disse meu chefe, afinal todo mundo consegue.
O que eu posso fazer senão chorar?
E não é que de uma hora para outra Deus troca o meu nome? Agora sou Abídia, prazer conhecê-lo.
De manhã, hoje, ouvindo meus recados na secretária eletrônica, me deparei com um elogioso. Falava de um texto meu, de um abre de entrevista, e dizia que o ele era maravilhoso e que várias pessoas estavam comentando sobre aquele texto. E que tal se este recado foi deixado na secretária eletrônica por Neide Duarte, o melhor texto do jornalismo brasileiro?
Hoje foi um daqueles domingos em que a cozinha é o grande desafio. Fui logo cedo para a feira* atrás de ingredientes e inspiração. Às vezes os livros de culinária são utilíssimos. Às vezes, não. Hoje eles não me serviriam para absolutamente nada. Então fui para feira. E, sem idéia, voltei com frango, pimenta rosa, abóbora, alface, tomate cereja, limão, rúcula, carambola, pastel, e dois maços de flores.
Ninguém comeu as flores, calma. De almoço - para Esper, Buana, Catarina e Luciana - sairam crepes de frango com palmito, salada de alface, tomate cereja, rúcula e carambola e o macarrão de ontem à noite, de presunto, champignon e bacon. E pure de abóbora com pimenta rosa.
Três horas de cozinha, elogios, mas sempre a insatisfação minha mesma de que a comida poderia estar muito melhor. Preciso arrumar alguém que cozinhe para mim.
O que nos faz ir à locadora e trazer mais filmes do que possamos, de fato, assistir?
Assim falou Wilhelm Reich: “Nascemos livres, mas é como escravos que estamos
passando a vida”.
Daqui a pouco, beagá.
pão.de.queijo
E quem quiser me ver na televisão, basta assistir ao telejornal noturno da Rede Minas hoje à noite. Vou estar lá.
back
E amanhã estou de volta em SP.
PS
Acabei de ler uma notícia pouco alentadora agora. Um homem tentou desviar a rota de um avião da Gol para chamar a atenção de parlamentares. E depois, se não desse certo, ele iria tomar fomicida. Deus me ajude. Em Congonhas e na Pampulha.
Mary Jo, sitting alone
Drinking tea, she just got home
She wants, I don't know what you want
Mary Jo, living alone
Drinking gin with the telly on
She wants
The night to follow day and back again
She doesn't want to sleep
Well who could blame her if she wants?
The night to follow day and back again
She doesn't want to sleep
Well who could blame her, if she sleeps?
Well who could blame her, if she sleeps?
Well who could blame her, if she's sleeping?
Mary Jo, back with yourself
For company, keep telling yourself you're young
It'll happen soon
Mary Jo, no one can see
What you've been through
Now you've got love to burn
It's someone else's turn to go through Hell
Now you can see them come from twenty yards
Yeah you can tell
It's someone else's turn to take a fall
And now you are the one who's strong enough to help them
The one who's strong enough to help them
The one who's strong enough to help them all
Mary Jo, you're looking thin
You're reading a book, “The State I Am In”
But oh, it doesn't help at all
What you want is a cigarette
And a thespian with a caravanette in Hull
Because life is never dull in your dreams
A pity that it never seems to work the way you see it
Life is never dull in your dreams
A sorry tale of action and the men you left for
Women, and the men you left for
Intrigue, and the men you left for dead
(Mary Jo, Belle and Sebastian)
Então chega um tempo em que o mais importante é sempre se perguntar “em nome de quê?”. Em nome de quê venho trabalhar? Em nome de quê acordo às 5h30? Em nome de quê almoço? Em nome de que participo de reuniões e saio sempre perdendo delas? Em nome de que fico em silêncio e em nome de que falo? Em nome de quê?
Este tempo, que se aproxima e acena para mim com uma infantilidade quase mórbida, é duro. Quando estas perguntas são feitas, a sensação é como aquela de limpar gavetas. A propósito: há quanto tempo você não limpa as suas gavetas?
Você já ouviu falar em Guararema? Pois é. Vou para lá hoje.
Eu gostaria muito de entender por que quase ninguém - só o Vitor - comentou o meu post sobre a Perla. Fiquei tão decepcinado...
a revista fechou, o final de semana já vem, e parece que o pagamento chega hoje. Eu sempre desconfio desses surtos de bem-aventurança.